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**Baseado nos artigos,  de Clair Thunes, PhD, Na  palestra da Dra Kristine Urschel, PhD, professora associada de ciência animal e pesquisadora de nutrição equina na Universidade de Kentucky, em Lexington. E aqui contamos com a colaboração da Profa. Dra. PhD Ana Alix da Faculdade de Zootecnica da UNIOESTE-PR ***

Clair Thunes, PhD | Tags# #Alimentação cavalos de alto desempenho, #cuidados com cavalos, #nutrição_equinos, #noções básicas nutricionais, #Kristine_Urschel_PhD , #Dra.Ana_Alix_PhD (USP) , Professora na Unioeste_PR

Introdução

Para nós que treinamos cavalos , principalmente quem treina cavalos de alto desempenho, que temos a constante busca por fontes que auxiliem  no ganho e manutenção de massa muscular , é essencial atualizar o conhecimento e sair da tentativa e erro, não basta aumentar oferta de proteína, nem é tão simples como fornecer suplementação , sem analisar qual  fonte  de fato é absorvida pelo metabolismo do cavalo, com suas particularidades.  Mas, após estudar os originais que inspiraram estes artigos aqui citados, caminhamos no sentido de que aminácidos, que devem ser absorvidos no intestino delgado, são mais eficientes do que proteínas em geral que vão ao intestino grosso (ceco e cólon) e alimentam compartilhadamente  e mais a flora microbiana (que sim deve ser reposta), mas não responde ao início da questão, titulo deste artigo.

Uma pesquisadora de nutrição equina da Universidade de Kentucky compartilhou recentemente o que sabemos sobre as necessidades de proteína dos cavalos, como eles digerem proteínas e seu papel na construção muscular e topline.

Proteína é um tema que intriga os proprietários, criadores e treinadores de cavalos por muitos anos e talvez esteja associado a mais mitos do que qualquer outro nutriente. Mas o que realmente sabemos sobre os requisitos de proteína de um cavalo?

Os requisitos são indicados como proteína bruta em gramas por cabeça por dia. No entanto, o teor de proteína bruta de uma ração não é intrinsecamente medido; em vez disso, é um cálculo baseado na quantidade de nitrogênio nessa ração. Conhecer o teor de proteína estimado das rações é um componente, mas como determinar a exigência de proteína de um cavalo? Kristine Urschel, PhD, professora associada de ciência animal e pesquisadora de nutrição equina na Universidade de Kentucky, em Lexington, abordou o tema em uma palestra intitulada “Protein Nutrition in Horses: What we’ve learned and where’re going”, que ela apresentou no Gluck Equine Research Center da Universidade de Kentucky  recentemente em 18 de novembro de 2021.

Para nós que criamos e treinamos cavalos por aqui, em um país onde a cultura equestre é mais por tradição do que por pesquisa e conhecimento científico em todas as áreas e mesmo nossas universidades pesquisam pouco, considero mais uma vez, extremamente util compartilhar esse material, como fiz em 2017 sobre oferta de gorduras como fonte de energia aos cavalos, naquela época motivado por informações da amiga e Profa. Dra Ana Alix da UNIOESTE-PR. E  naquela ocasião também foi uma pesquisa da Universidade de Kentucky-EUA, que amarrou as pontas da  questão. Hoje já temos felizmente algumas poucas fábricas modernas no Brasil, que inseriram gordura nas suas fórmulações de concentrado, como a Qualy Nutrição Animal,  que nos fornece atualmente e também a Nutrimaxx.

Voltando ao artigo  atual, sobre proteínas, Urschel definiu a cena como uma breve visão geral da pesquisa de proteínas fundacionais em cavalos. A proteína foi reconhecida pela primeira vez como um nutriente essencial há mais de 100 anos, com a importância da lisina como um aminoácido limitante essencial reconhecido há quase meio século. Pesquisas iniciais analisaram questões como: –  se os cavalos podem utilizar fontes de nitrogênio não-proteína (NPN), como a ureia, um ingrediente frequentemente usado em rações de ruminante (bovinos, ovinos, caprinos). Embora os cavalos possam usar essa fonte de nitrogênio, não é tão eficiente quanto alimentá-los com proteína de boa qualidade (que contém nitrogênio).

Digestibilidade proteica

Outras pesquisas fundamentais incluíram digestibilidade proteica. Os cientistas investigam a digestibilidade determinando o conteúdo proteico da dieta e comparando-o com o teor de proteína resultante nas fezes. A suposição é que o que está faltando foi digerido e absorvido. Este tipo de trabalho sugere que os cavalos digerem proteínas tanto de grãos de cereais quanto de forragens. No entanto, não revela se a proteína que faltava estava realmente disponível para o cavalo. E neste artigo , antecipo que a diferença neste saldo, é parte que alimenta as bactérias presentes no CECO , a câmara de fermentação do intestino grosso, necessárias à digestão da proteína das gramíneas.

O corpo do cavalo digere e absorve proteínas como aminoácidos no intestino delgado. No entanto, grande parte da proteína forrageira está ligada dentro dos componentes estruturais das plantas e, portanto, requer fermentação microbiana no Ceco  para liberação. Uma vez liberada no ceco do cavalo, a proteína disponível provavelmente será usada pelos micróbios intestinais, deixando apenas suas fontes de nitrogênio de resíduos, como amônia, disponíveis para o cavalo. Isso poderia potencialmente deixar os cavalos deficientes em aminoácidos essenciais-chave, se a dieta não fornece outras fontes pré-cecais derivadas (antes do ceco, que é uma grande bolsa no início do intestino grosso) como outras fontes de aminoácidos.

De acordo com Urschel, nos últimos 20 anos, as técnicas de pesquisa permitiram que os cientistas olhassem em grande detalhe o quão bem o “hindgut” (intestino grosso) do cavalo absorve aminoácidos. Eles encontraram RNA mensageiro de vários transportadores de aminoácidos no intestino grosso, incluindo aqueles para os aminoácidos da cadeia de ramos (aminoácidos particularmente importantes para o desenvolvimento e manutenção muscular).

No entanto, segundo a professora Ana Alix, “temos de focar essencialmente na absorção proteica no intestino delgado, uma vez que no intestino grosso a proteina restante servirá sim para alimentar a flora microbiana do cavalo e não para ele diretamente. Olha que interessante, não necessáriamente você verá que os aminoácidos não absorvidos no intestino delgado e que ‘caem” no intestino grosso  são matéria prima para uma nova síntese de proteína microbiana, por exemplo uma bactéria que irá digerir a fibra do volumoso, ela precisa ser sempre reposta. Então quando o artigo usado como base aqui fala em absorção no intestino grosso, isso se refere a pesquisa in vitro e não no intestino do cavalo, não propriamente no Ceco e Cólon. A histologia da parede intestinal é como à do Rumem, uma digestão por fermentação, então ainda é preciso ler esse artigo com a devida ressalva, uma vez que não temos algo conclusivo, definitivo,  sobre o quanto da absorção no Ceco de fato, fica no cavalo”, alerta a dra Ana Alix (Unioeste PR).

De volta ao texto de Clair Thunes, … “Na verdade, esses transportadores estão em maior número no cólon do que no intestino delgado. O cólon também tem sido bom no transporte de lisina, considerado o aminoácido mais comumente limitador, através de seu revestimento.

Uma limitação potencial com esses estudos é que eles foram conduzidos in vitro (em laboratório). Isso significa que não havia competição para a absorção de aminoácidos, como ocorre no Cavalo, pois nele  existem as bactérias do intestino grosso que competiriam por aminoácidos livres. Portanto, embora exista a oportunidade de os aminoácidos serem transportados para fora do “hindgut”, não está claro o quanto esses mecanismos contribuem para o status de aminoácidos do cavalo” , no que praticamente confirma a observação da nossa Professora Dra Em Zootecnia na UNIOESTE PR.

Absorção de aminoácidos

Além de entender melhor a digestão e absorção de proteínas, Urschel diz que pesquisadores têm trabalhado nos últimos anos para determinar melhor a adequação do aminoácido para o cavalo.

 Quanto dos aminoácidos essenciais os cavalos precisam? Alimentar mais proteína do que o necessário é caro e resulta na formação de amônia que é excretada na urina. Até agora, a pesquisa não encontrou nenhum ponto de ruptura claro que identifique as quantidades necessárias de aminoácidos essenciais.

A pastagem, ofertada nos EUA, ao que parece, pode atender aos requisitos de aminoácidos, e pastagens de tipos diferentes resultaram em níveis semelhantes de aminoácidos de plasma, disse Urschel,  o que nem sempre se ná aqui no Brasil, onde temos uma diversidade de solos e a degradação da qualidade de nutrientes dos pastos é muito maior do que em outros locais.

Desenvolvimento de Massa Muscular e Topline

A regulação da massa muscular e o gerenciamento da linha superior tornaram-se tópicos quentes com proprietários de cavalos e cientistas, disse Urschel.

Ela explicou que o músculo representa 40-55% do peso corporal do cavalo, que é uma proporção maior do que outras espécies. A massa muscular é regulada pela síntese proteica, que por sua vez é regulada por uma série de fatores, incluindo a idade do cavalo, atividade física, nutrição, hormônios, doenças e alguns medicamentos que podem sequestrar componentes nutricionais.

Disse Urschel, “um dos principais reguladores da síntese de proteínas é o caminho de sinalização mTOR. Para entender melhor o mecanismo subjacente, os pesquisadores têm investigado como os fatores conhecidos por impactar a síntese proteica impactam o mTOR. O exercício e a insulina afetam o mTOR, assim como a nutrição, “mas também há uma diminuição na capacidade de resposta deste caminho à medida que os cavalos envelhecem”, disse Urschel, acrescentando que essa pode ser uma das razões pelas quais os cavalos mais velhos têm mais dificuldade em manter suas linhas superiores.

Do ponto de vista nutricional, parece que 0,25 gramas de proteína por quilograma de peso corporal ativam ao máximo a via de sinalização mTOR ( Nota da Profa Ana Alix: fator de sinalização entre outros que compôem uma cadeia em cascata e seguem a via metabólica mTOR , uma via formal em mamíferos – alvo da via rapamicina) , em cavalos maduros”.

“Dos aminoácidos, a leucina essencial do aminoácido tem sido particularmente boa em ativar a sinalização mTOR”, disse Urschel. Este aminoácido é frequentemente incluído em suplementos comerciais que afirmam construir massa muscular, acrescentou. Mas tenha em mente que esta pesquisa foi conduzida em células de satélite cultivadas in vitro, não no cavalo, disse ela.

“Após o exercício em puro-sangues jovens, a infusão de uma solução contendo aminoácidos e glicose foi mais eficaz no aumento da síntese de proteína muscular entre os membros traseiros e na supressão da degradação da proteína do membro traseiro para um ganho líquido em massa muscular do que soluções que contenham apenas soro fisiológico, glicose ou aminoácidos”, disse Urschel.

Pesquisadores também estudaram o efeito da N-acetilcisteína (NAC). Este composto é um precursor da glutationa, um poderoso antioxidante envolvido em muitas vias. A glutationa tem sido relatada para melhorar o desempenho do exercício e reduzir os efeitos do estresse.

No entanto, alguns pesquisadores pensaram que muito N-acetilcisteína poderia suprimir o caminho de sinalização mTOR. Urschel relata que pesquisas recentes que analisam o efeito de nac ou aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) ou NAC mais BCAA na sinalização mTOR após o exercício descobriram que eles não tiveram impacto. O exercício resultou em uma ativação transitória da via de sinalização mTOR.

Mais pesquisa é necessária

Embora os pesquisadores de nutrição e fisiologia equina tenham feito progressos para entender melhor as necessidades específicas de aminoácidos e proteínas dos cavalos, muito conhecimento permanece excelente, disse Urschel.

Ela esboçou várias áreas onde mais trabalhos são necessários. Estes incluem uma melhor compreensão do microbioma do i ntestino grosso e o papel que desempenha na digestão e utilização de proteínas, trabalho adicional sobre digestibilidade básica, determinação de requisitos específicos de aminoácidos e mais conhecimento sobre como aumentar a massa muscular.

Novas pesquisas e com a expansão das metodologias nos permitem uma maior compreensão da nutrição proteica e do metabolismo no cavalo, o que cria oportunidades emocionantes para novas pesquisas em nutrição de proteínas em cavalos. Pesquisas em andamento permitirão a otimização contínua da nutrição proteica e para que proprietários e gestores atendam melhor às necessidades de seus cavalos.

*Por José Luiz Jorge,  horseman,  titular do Rancho São Miguel Educação Equestre e autor dos livros Conversando sobre Cavalos (2008) e Aprendendo com o Cavalo (2017) Editora Rígel, Porto Alegre,RS (Brasil)

** Clair Thunes, PhD, é uma nutricionista equina dona da Clarity Equine Nutrition, com sede em Gilbert, Arizona. Ela trabalha como consultora para proprietários/treinadores e veterinários nos Estados Unidos e globalmente para tirar a “adivinhação” da alimentação de cavalos e presta serviços para empresas selecionadas. Como nutricionista, ela trabalha com todos os equideos, desde competidores weg até burros em miniatura e tudo mais. Nascida na Inglaterra, formou-se na Universidade de Edimburgo, na Escócia, e seu mestrado e doutorado em nutrição na Universidade da Califórnia, Davis

***A  zootecnista e associada da Associação Brasileira de Zootecnistas (ABZ), Ana Alix Mendes de Almeida Oliveira, foi a vencedora da edição de 2017 do prêmio Octávio Domingues, condecoração ofertada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) que reconhece o trabalho de zootecnistas para o crescimento da profissão no Brasil. Ana Alix é a nona zootecnista a receber a premiação.

Em seus 25 anos de profissão, Ana Alix possui um currículo que vai além do que pode ser registrado no Lattes. Formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Ana Alix se considera uma militante da equideocultura, área que, na sua opinião, é pouco reconhecida dentro da zootecnia. Após sua formação, ela fez mestrado em zootecnia também na UFV e doutorado em zootecnia com área de concentração em produção animal pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A zootecnista possui ainda especialização em nutrição equina pela Universidade Estadual da Califórnia e pós-doutorado em ciência animal no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, na Universidade de São Paulo (USP).

Na bagagem, Ana Alix traz diversas contribuições para o cenário da equideocultura, como a primeira pesquisa de digestão pré-cecal com equinos fistulados no íleo no Brasil, sob coorientação da médica veterinária Maria Ignez Leão.

http://abz.org.br/blog/zootecnista-ana-alix-vencedora-premio-octavio-domingues/